terça-feira, 16 de setembro de 2008

LUZ

O gesto foi o de sempre. Um leve toque no interruptor. E a luz, ténua, a abrir caminho para outro Mundo. Aquele gesto, repetido vezes e mais, poderia ser considerado uma banalidade. Porém, acontece, palavra estranha, esta última, que pretende significar acontecimentos posteriores ou não fossem todos os acontecimentos posteriores a algo anterior que agora não faz qualquer sentido, o gesto teve um significado maior.
E teve um significado maior, acontece, porque a sucessão de acontecimentos posteriores ao gesto de sempre, o de um leve toque no interruptor, foi saboreada de forma diferente.
No momento, que fique registado o momento certo e exacto do leve toque, embora não me recorde seguramente do instante, senti de imediato a diferença.
Diferente. Pensei.
E no instante momento em que pensei que seria diferente, porque o toque, saber-se-á um dia porquê, foi também ele diferente, mas mecânico como todos os outros e com o único objectivo de inicializar um qualquer processo eléctrico nos filamentos de uma lâmpada, se têm ainda hoje as lampâdas filamentos, tornou-se mesmo diferente. E mal os filamentos da lâmpada, que se descobriu depois serem duas ou mais, tal o impacto que tiveram, embora no instante momento em que pensei ser diferente o gesto e o leve toque estivesse apenas à espera de uma, se incendiaram, tive a consciência absoluta que era mesmo diferente. E porque foi diferente, tal como tinha antes pensado e depois sentido, ou viceversa, porque as emoções eram já muitas, repeti o gesto. E repetindo esse leve toque no interruptor, tudo voltou ao princípio.
E o exercício, agora, que proponho em dueto, é perceber o que era esse princípio e, para isso, temos mesmo de voltar ao início e a outro gesto mecânico. Subi as escadas e, como sempre, duas voltas foram o suficiente para abrir a porta. Depois, a entrada e, com isso, a deslocação suave do braço para o interruptor. Tudo seria normal se um toque fosse suficiente. Mas desta vez, e depois de passar da escuridão para a luz, optei por passar também, e depois, por tudo aquilo em que o gesto que até então tinha sido banal se tinha transformado, da luz para a escuridão.
No fundo, pensei, numa sequência cada vez mais frenética de pensamentos, seria melhor a escuridão. Que não era escuridão.
A luz, que ainda era do sol e por isso não escuridão, iluminava serenamente o quarto.
A cama. Mais a cama.
A cama, onde estavas, e onde estaria eu mais tarde.
E nós.
Com luz.
Embora o gesto tenha sido contrário. Mas, com luz, pensei depois, com uma luz que seria sempre artificial.
A diferença do gesto, do leve toque no interruptor, soube agora, sem esforço, estava na luz.
Na tua. A precisar de um interruptor. Que nada tinha de artificial. Nem tem.